POR UMA POLÍTICA COMUM DE ARQUIVOS Chamamento para um acordo de boas práticas

Se há dez anos –em seu difundido e emblemático texto– Suely Rolnik alertava sobre a “arquivomania” solta em torno às práticas efêmeras ou desmaterializadas que entrecruzaram arte/política desde os anos sessenta e setenta na América Latina, hoje não há dúvidas das consequências devastadoras que sobre esses e muitos acervos documentais provoca o retrocesso do Estado (e a conseguinte ausência de políticas públicas) tanto como a desmesurada voracidade do mercado da arte.

Este chamamento recolhe e se une a uma preocupação mais ampla diante da deterioração, a fragmentação e a privatização a que se vêm expostos arquivos de diferente natureza (preocupação que tem sido manifestada por diversas instâncias tais como o Conselho Internacional de Arquivos e Arquivistas Sem Fronteiras, dentre outros). A urgência e a responsabilidade coletiva nos interpelam diante de um patrimônio comum em risco. O incêndio do arquivo de Hélio Oiticia e do Museu Histórico Nacional do Brasil são marcos de perda irreversível que mostra a cara mais visível do que impulsa este estado de alerta. A privatização e a dispersão de inúmeros acervos em mãos de colecionistas privados mostram outra cara, mais persistente e silenciosa.

Diante desta situação, propomos contribuir a sentar bases e acordos para impulsar uma política vinculante para a gestão comum de arquivos que não acabe presa na dicotomia entre o público e o privado. Consideramos necessário sintonizar critérios, metodologias e ensamblar comunidades que possam sustentar e ser corresponsáveis de uma política de arquivos que aposte na justiça cognitiva, a solidariedade epistemológica e que amplie a imaginação política institucional.

Lançamos este chamamento convocando pessoas e coletivos implicadxs em arquivos; depositárixs e guardadores, investigadorxs, arquivistas, artistas, ativistas, instituições tais como arquivos, bibliotecas, universidades, museus, centros de documentação, centros de pesquisa, redes locais, nacionais e internacionais, para fazer um acordo sobre uma série de critérios e orientações de boas práticas e, sobretudo, para articular iniciativas em comum que respondam às ameaças que se erguem sobre os arquivos ou que já os afetaram.

Entendemos que alguns pontos de partida inegociáveis na hora de impulsar uma política do comum para os arquivos são os seguintes:

1. Defender a integridade dos arquivos e conjuntos documentais. Priorizar a indivisibilidade e a ordem própria dos arquivos são princípios arquivísticos fundamentais para evitar sua fragmentação e dispersão. A distinção entre obra e documento nos arquivos de arte tem favorecido a segmentação do corpo documental dando valor a algumas partes em detrimento do resto. Diante disto, afirmamos também a necessidade de respeitar a lógica interna de cada arquivo para resguardar seus contextos de produção, sem lhes impor critérios de organização previamente definidos que borrem ou esqueçam a história singular de cada corpo documental.

2. Propiciar a localização. Ensaiar distintas alternativas de institucionalidade que permitam manter os arquivos no lugar em que aconteceram as experiências das que dão conta, para não descontextualizá-las nem aliená-las dos seus contextos e para favorecer o conhecimento situado em torno a suas memórias. Caso o arquivo já tenha sido deslocado, assegurar o acesso (digital ou com cópias físicas) no lugar de origem das práticas mesmo que o arquivo não fique fisicamente nesse lugar. Uma instituição não está situada só por estar em determinado espaço geográfico, mas na medida em que possa resguardar contextos restituir condições históricas e sociais dos arquivos.

3. Gerar condições adequadas de preservação e acesso dos arquivos, tanto materiais como digitais. A digitalização não garante o destino dos documentos físicos, e é preciso estar em alerta ao risco de obsolescência tecnológica dos dispositivos de registro e armazenamento que utilizamos. É necessário apostar numa preservação material, mas também imaterial dos documentos e para isso o acesso e uso (leitura, consulta, exposição, escrita na coleção) é fundamental. Chamamos a garantir a acessibilidade pública destes materiais, favorecendo usos diversos, que não estejam restringidos só à consulta ou a exibição, mas que habilitem outros modos de ativação. Recuperar uma política de acessibilidade em diferentes escalas, que permitam o acesso digital a distância, mas também revalorizar a relação direta com os materiais físicos e em co-presença de outras pessoas apelando as comunidades implicadas e interessadas.

4. Impulsar acordos de corresponsabilidade entre instituições, depositárixs e guardadores, sujeitxs dos documentos, artistas, ativistas, pesquisadorxs e a comunidade próxima e interessada, baseadas na reciprocidade entre as distintas instâncias partícipes em cada arquivo, seja qual for sua escala, e em compromissos compartilhados para a sustentabilidade dos arquivos a longo prazo. Contribuir a formar uma comunidade de cuidado em torno a cada arquivo.

5. Ativar a imaginação arquivística como estratégia para responder ao cambiante e crítico momento presente e ao mercado cada vez mais agressivo. Diversificar e criar táticas para sustentar a integridade dos arquivos, com o horizonte das políticas de aliança institucionais e extra institucionais que permitam sustentar os arquivos como um comum co-gerenciado.

Pensamos a imaginação arquivística como um modo de deixar este chamamento aberto à inventiva de novas possibilidades, porque sabemos que os primeiros quatro pontos são urgentes, mas possivelmente não sejam suficientes. A imaginação arquivística é uma chamada a prestar atenção aos movimentos do presente para encontrar respostas situadas. Para isso chamamos a ativar tanto a imaginação histórica, que possa voltar sobre práticas de outros tempos para convocar sua potência disruptiva sobre o presente e encorajar sua dimensão de futuro, como a imaginação internacionalista, que possa pôr em comum conflitos e soluções ensaiadas em diferentes latitudes de modo descentrado dos eixos norte/sur ou de centros/periferias.

Convocamos a aqueles que, a título pessoal, coletivo ou institucional, coincidam com esta formulação, a aderir a este chamamento como toma de posição, a compartilhar, a expandir seu alcance, e sobretudo a impulsar isto como uma política comum e vinculante em cada situação concreta de arquivo em que estejamos involucradxs.

Assinaturas

Red Conceptualismos del Sur

Archiveras sin fronteras (Chile) 

Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (España)

Archivo General de la Universidad de la República (Uruguay)

Centro de Artes Visuales / Museo del Barro (Paraguay)

Museo de la Solidaridad Salvador Allende (Chile)

Museo Universitario Arte Contemporáneo, MUAC-UNAM (México)

Asociación Civil Clemente Padín (Uruguay) 

Archivo Graciela Carnevale (Argentina)

Archivo Elena Lucca (Argentina)

Archivo memorias de la resistencia, Centro Cultural Tallersol (Chile) 

Archivo Guillermo Nuñez (Chile)

Archivo fotográfico Kena Lorenzini (Chile)

Museo de la Memoria  y los Derechos Humanos (Chile)

Memoria Abierta (Argentina)

Proyecto Juan Acha (México)

Desarquivo.org (Brasil)

Museo de la Palabra y la Imagen (El Salvador)

Museo Municipal de Bellas Artes Juan B. Castagnino (Museo Castagnino + Macro, Rosario, Argentina)

Centro de Arte Experimental Vigo (Argentina)

Archivo Luz Donoso (Chile) 

Archivo Guillermo Deisler (Chile) 

Museo de Arte Contemporáneo de Montevideo (Uruguay)

Museo de Arte Moderno Chiloé (Chile)

Archivo Central Andrés Bello de la Universidad de Chile (Chile)

Maestría Museología y Gestión del Patrimonio de la Universidad Nacional de Colombia (Colombia)

CRAC, Valparaíso (Chile)

Departamento Teoría de las Artes Universidad de Chile (Chile)

Núcleo de Estudios y Documentación de la Imagen, Instituto de Investigaciones Geohistóricas Universidad Nacional del Nordeste (Argentina)

Biblioteca de la Facultad de Bellas Artes de la Universidad Complutense de Madrid (España)

Archivo histórico de la Universidad Complutense de Madrid (España) 

Biblioteca General de la Universidad Complutense de Madrid (España)

Sociedad Española de Documentación e Información Científica SEDIOC (España)

Archivo José Carlos Mariátegui (Perú)

Alta Tecnología Andina – ATA (Perú)

Magíster Arte, Pensamiento y Cultura Latinoamericana de la USACH (Chile)

Archivo Yeguas del Apocalipsis (Chile) 

Archivo Memorias Subterráneas (Argentina)

Revista Archivoz (España)

Museo de la Palabra y la Imagen (El Salvador)

WET Labs (México)

Anarchivo Sida (España/ Chile)

La Virreina Centre de la Image de Barcelona(España)

Londres 38 (Chile)

Centro de Arte de la Universidad Nacional de La Plata (Argentina) 

Archivo ArteFacto, Managua (Nicaragua)

Pensamos no Chamamento relacionalmente, como algo aberto e vinculativo. Com efeito, ele se autodenomina um código de boas práticas incompleto ou mesmo a ser completado. Um código aberto que sabe que sua fragilidade, seus buracos podem ser sua força. É por isso que queremos que este Chamamento seja revisto, discutido e retrabalhado em diferentes países e cidades para continuar aprofundando seu poder transregional a partir de experiências e perspectivas locais. E assim, posso contribuir para criar uma comunidade de arquivos de arte / política.

Para aderir à Chamamento: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSd4uQi5YeyiUjxnnBqGBs3xPSC59taIDsD-X6X91ZcplIAXsQ/viewform?usp=sf_link


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